Crescer sem amor
Série II - PROGRAMA 6 - 2011

Crescer sem amor

Quando o Bispo lhe pediu para ir averiguar como funcionava a Casa dos Pequeninos, o Padre Domingos não gostou do que viu: cerca de 20 crianças órfãs viviam naquele lugar que mais parecia uma prisão com arame farpado à volta. Ouviu, mais tarde, as queixas daqueles meninos e meninas que denunciavam os maus-tratos. O Padre Domingos, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, a viver em São Tomé e Príncipe há muitos anos resolveu intervir. Era necessário fazer mudanças profundas naquele orfanato que está sob a alçada da Cáritas são-tomense.

Com um escasso financiamento do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social de Portugal, o Padre Domingos começou a sua difícil missão. A primeira ordem foi retirar o arame farpado. Mas o seu desejo de acção não se ficava por aí. Queria limpar o terreno cheio de pregos, paus e lixo, onde as crianças brincavam sem qualquer segurança. Desejava uns baloiços e escorregas para os mais pequenos se divertirem. Recusava-se a aceitar que aqueles meninos e meninas, já sem pais, continuassem a passar fome ou a ser vítimas de violência por parte de alguns funcionários do orfanato.

A Casa dos Pequeninos foi criada para albergar crianças em situação de grande vulnerabilidade. No entanto, ao longo dos anos, tem acolhido mais do que o seu ínfimo e degradado espaço permite. Órfãs, abandonadas pelos pais, deficientes, vítimas de subnutrição ou maus-tratos – são estas as histórias das crianças do orfanato.

Uma realidade que resulta da pobreza em São Tomé, que atinge uma grande parte da população e leva muitos a procurar refúgio no álcool para enganar a fome e esquecer o dia-a-dia. O consumo de álcool está, também, a aumentar nas mulheres, mães são-tomenses. O Padre Domingos fala mesmo de famílias inteiras que sucumbem ao vício e abandonam as suas crianças, que acabam por vir parar a lugares como a Casa dos Pequeninos.

Com notórias dificuldades financeiras, de gestão e recursos humanos, o orfanato está longe de conseguir dar às crianças as condições que elas necessitam para crescer. O Padre Domingos mostra-nos que vários bebés dividem o mesmo berço, não há um fogão a gás, são poucas as amas para cuidar devidamente de tantos meninos e meninas.

Na Casa dos Pequeninos, as crianças sonham com uma infância de afectos, mas que até agora não lhes foi dada. “O meu sonho é que encontrem uma família onde possam receber aquilo que nós aqui não podemos dar… uma mãe e um pai”, desabafou o Padre Domingos.
A Casa dos Pequeninos é a prova de que, em São Tomé e Príncipe, há ainda um longo caminho a percorrer para erradicar a pobreza extrema e a fome (1º Objectivo de Desenvolvimento do Milénio), garantir o acesso à educação (2º ODM) e reduzir a mortalidade infantil (4º ODM).

Contacto Alisei: + 00 239 990 87 36

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Fotografias:
  • O Padre Domingos confessa, comovido, que o orfanato Casa dos Pequeninos “não reúne condições para as crianças”. “O meu projecto são estes meninos… Dar o máximo por eles para que cresçam dentro do que é possível com muita paz e carinho.”
  • Uma das meninas do orfanato denuncia que algumas das funcionárias da instituição “não são gente boa”, porque “batem na cabeça” das crianças “com um pau”.
  • As crianças do orfanato brincam neste espaço sem quaisquer condições. A terra está cheia de pregos, pedras e lixo, que põem em causa a segurança e saúde dos meninos e meninas do orfanato.
  • Três ou mais crianças chegam a dividir a mesma cama. O orfanato, degradado, não tem condições para todas as crianças que acolhe.
  • Um dos bebés da Casa dos Pequeninos foi encontrado sem comer há vários dias junto da mãe, que estava em coma alcoólico. A pobreza extrema tem levado muitas mulheres são-tomenses a refugiarem-se na bebida.
  • Muitas das crianças da Casa dos Pequeninos estão malnutridas. O orçamento do orfanato não é suficiente para a alimentação, nem para os cuidados de saúde e educação das crianças.
  • Órfãs, abandonadas pelos pais, deficientes, vítimas de subnutrição ou maus-tratos, as crianças mostram uma grande carência de afectos. As amas são a sua única família.
  • As crianças denunciam que os brinquedos doados à instituição têm sido escondidos. A coordenadora do orfanato não desmente, mas justifica que é para que as crianças não estraguem todos os brinquedos.