Sudão do Sul

Sudão do Sul

É o mais jovem país do mundo que teve a sua independência em Julho de 2011.

Foi emocionante sentir o orgulho do povo do Sudão do Sul pelo facto de ter, finalmente, conseguido a sua independência. O país (como os sudaneses do sul me disseram) está ainda a juntar tijolos para depois passar a governar com autonomia. Sente-se isso nas pessoas, nas ruas da capital Juba e no dia-a-dia ainda incerto devido aos recentes conflitos sempre de origem étnica e religiosa. Este é um dos países menos desenvolvidos do mundo.

É muito chocante assistir às condições (muito abaixo das que seriam aceitáveis para um ser humano) em que vive a maior parte da população sudanesa do sul. 80% não tem acesso a cuidados de saúde básicos! A água potável é um luxo! A taxa de mortalidade materna é considerada a mais elevada do mundo e a taxa de mortalidade infantil indica que uma em cada quatro crianças morre até aos 5 anos. Menos de 10% das crianças chega a completar o ensino primário! 92% das mulheres não sabe ler nem escrever!

Depois de mais de 20 anos de guerra (e mais de 50 de conflito) que provocaram milhares de mortos, deslocados e refugiados, a mais recente Nação recebe agora a visita dos países vizinhos (Egipto, Uganda, Quénia) que acreditam que podem aqui ter uma possibilidade económica.

O bom e o mau mais uma vez se misturam e com a pobreza extrema, o desespero (levado tantas vezes ao limite com problemas de álcool), a ignorância (falta de acesso a serviços de educação) e outros factores, fica, como sempre, para as mulheres e para as crianças o pior e mais dramático papel. São elas as maiores vítimas quer da pobreza, quer da violência.

Entrevistei meninas (e algumas acabam por ser meninas de rua) que ainda crianças estão habituadas a achar que não têm direitos e que não podem gostar nunca de si próprias. Estão com onze, doze, treze anos já na prostituição, são violadas aos cinco e seis anos, vendidas em troca de vacas aos dez, obrigadas a casar com homens de sessenta anos, impedidas de ir à escola, anuladas.

Acompanhámos o trabalho extraordinário que a ONG CCC (Confident Children Out of Conflict) faz no terreno tirando as meninas destes ambientes e permitindo que possam ir à escola, ter outros sonhos e oportunidades para que, um dia, também elas venham a ajudar o seu país a desenvolver-se.

Com os missionários Combonianos portugueses, o Padre José Vieira (jornalista) e o Irmão António Nunes (enfermeiro), percorri a cidade e fiquei a conhecer bem de perto quer as fragilidades ao nível da segurança do país, quer ao nível da saúde e da educação.
Testemunhámos o trabalho do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA, do qual sou Embaixadora de Boa Vontade) na maternidade, que visa reduzir a taxa de mortalidade materna. Visitámos ainda o único Hospital Pediátrico existente no país que tem o apoio da UNICEF numa luta diária para reduzir a taxa de mortalidade infantil.

A esperança média de vida no Sudão do Sul é de 45 anos. Apesar de tudo, espera-se que este recomeço, do zero, traga outra esperança às próximas gerações. E esse sentimento foi-me passado.
Desejo que eu, o realizador Ricardo Freitas e o repórter de imagem Hugo Gonçalves, da produtora Até ao Fim do Mundo (sempre os mesmos desde há cerca de 7 anos!) consigamos passar através desta terceira série do programa "Príncipes do Nada" todos os bons exemplos de quem anda a lutar por um mundo bem mais justo e que, ao mesmo tempo, angariemos novos cúmplices.

Nesta altura de crise dos países desenvolvidos, não podemos nunca esquecer que os países em desenvolvimento ficarão numa situação ainda mais dramática. E os países são pessoas. As vidas que nós os três vimos perder (quando no nosso país seriam poupadas) não nos deixam parar de mostrar o mundo tal como infelizmente está. Mas sempre através de uma abordagem positiva. E o mesmo também faremos no nosso país seguindo algumas histórias inspiradoras.

Catarina Furtado

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